terça-feira, 8 de dezembro de 2009

O jardim renovado















Era uma vez
um jardim abandonado
com persistência e carinho
foi cuidado
passando de fútil, a útil.
Fez-se a vedação
que o livrou do cão,
tem agora uma horta;
penca, feijão,
tomate, ervilha torta,
aromáticas e alface.
Flores, trepadeiras,
arbustos, roseiras
e as antigas residentes.
Para que não falte nada
neste renovado jardim,
eis que chega a passarada,
as joaninhas e o pulgão,
abelhas, borboletas
e tem até um sardão!
...Agora sim
está completo o jardim...

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

A Casa do Ronco















Oca ficou a casa,
vazia de tudo
plena de ausências.
Sobeja espaço
no casarão centenário
sombrio, emudecido
e esquecido.
Dói tanto abandono
tamanha ruína.
Subsiste a memória;
dos risos na sala velha,
das correrias no pomar,
das brincadeiras no sótão
e das escondidinhas no moinho.
Os tempos infinitos
a admirar os vasos
tão bonitos,
das begónias na varanda,
com as suas folhas de veludo
observando tudo
através das janelas…
tão diferentes eram elas
das plantas do jardim!
…Coisas tão belas!...
Tinham de terminar assim?!

terça-feira, 27 de outubro de 2009

O Moinho do Tio Amadeu

A Casa Grande, tinha um moinho de cereais, movido a água que corria através do regato escavado na encosta. Num socalco paralelo, por onde passava a água que se escapava do canal, o tio Amadeu (que teria doze a 14 anos) construía uma engenhoca, para as nossas brincadeiras, a que chamava «moinho». Quantos ele construiu!

Para a complicada obra, começava-se pela recolha do material que obedecia a um rigoroso ritual:
O tio seguia na frente e as pequenas todas em filinha indiana, atentamente, a seguir o mestre. Claro que só ele sabia o que era bom e apropriado. Dizia, e fazia, tudo com uma autoridade e uma importância, que ficavam convencidas de que, o tio Amadeu sabia daquilo como ninguém, e, realmente não havia nas redondezas quem fizesse o tal (excepto os outros tios, claro). A canalhada – como ele nos chamava – só servia para carregar. Até porque sendo o mais velho, só ele podia utilizar o canivete para a preparação de todo o material de construção.


Para ilustrar o conto, o tio Amadeu teve a amabilidade de construir um moinho, igualzinho ao de outrora. A montagem, sujeita a certas limitações, teve de ser feita no jardim lá de casa, uma vez que o sítio das nossas brincadeiras desapareceu. Hoje, está irremediavelmente enterrado debaixo de uma estrada.«Ó canalhada”lembrais-vos”?!»

Começava por cortar pauzinhos de «ziriguindum», uns rectos e outros em «Y» para servirem de suporte à rede de canalização; bugalhos e «canos» - o mais difícil de arranjar - que obrigavam a uma pesquisa cuidada. Tínhamos de nos embrenhar no campo de milho, andar entre as canas altas, à cata de aboboreiras. Aí, o tio Amadeu escolhia cuidadosamente quais os caules a abater. Deviam ser o mais retorcido possível para resultar uma obra espectacular! E para não estragar a planta, só podia cortar um de longe a longe. Por isso, ele é que cortava para não estragar a aboboreira! Como os caules tinham «picos» o tio limava-os com o canivete – para que não picassem - cortava a folha, e distribuía os «canos» que transportávamos com todo o cuidado para não estalarem, ou não vedariam a água. Recolhido o material, seguíamos para o local da construção.

Uma vez preparados os caules, era necessário encaixa-los uns nos outros, apoiando-os nos suportes de diferentes alturas, o que dava origem a uma rede emaranhada, retorcida e com vários níveis – autêntica obra de engenharia - que transportava a água até ao «moinho».
O «moinho» era feito com dois paus cruzados, apoiados em dois suportes laterais. Em cada extremidade da cruz, enfiava-se um bugalho oco onde batia a água, fazendo rodar a geringonça. Para terminar a decoração e criar um ambiente, construíam-se uns laguinhos, uns canais, colocavam-se umas pedrinhas... e o que mais nos apetecesse.

Quando tudo estava praticamente pronto, e nos preparávamos para admirar a obra, e ver tudo a funcionar, aparecia a avó dava dois tabefes no tio Amadeu e com uma vassourada deitava por terra todo o trabalhinho!
Não o fazia por maldade, fazia-o porque o tio para brincar, deixava o verdadeiro moinho abandonado a moer em seco, perdia-se a água e rompiam-se as mós em vão.

Mas, logo que a avozinha virava costas...recomeçava tudo de novo!

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Areia e mar

Praia varrida de gente
só areia e mar
pela frente.
Ondas agitadas
pela nortada;
cristas de espuma branca
avançam apressadas,
galgando os rochedos
batidos, informes,
numa ânsia desmesurada
de se estenderem
na areia dourada,
qual toalha
de alva renda guarnecida.
Detenho-me
deliciada coa maresia,
na fresca manhã vazia.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Uma manhã de Agosto

Bem cedo pela manhã
beija o sol
o canteiro da hortelã.
Há perfume no jardim
a limonete e jasmim,
doce, o remoinho
que envolve a menta e o rosmaninho.
Tudo balança
e se agita
numa dança tão bonita!...
A brisa deliciosa
cicia nos rubros botões de rosa
e, fresca, branda
chega até mim
na varanda…

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Margaridas




















Aquele pé de margarida,
de flores puras, inocentes,
plantado ali em frente
numa terra ressequida,
coitada, ficou esquecida.
Daqui não a posso regar,
como a foram ali plantar?!
Talvez transportada pelo vento,
a semente se foi ali alojar!
E aquele pé de margarida
retorcido,
pelas flores colorido,
fica agora a padecer,
até chover.
Quase sozinha,
tendo por companhia
apenas a erva daninha,
esperam que a noite chegue,
para aliviar a sede
com o orvalho do relento,
vindo lá do firmamento

terça-feira, 23 de junho de 2009

S. João




















Sardinha na brasa
Vinho e fatia de pão
Faz-se a festa cá em casa
Ao Santo chamado João

Como manda a tradição
A cascata
Com S. João no Altar
Para Jesus baptizar

E como não podia faltar
Eis que chega
A tradicional neblina
À noite Sanjoanina

Foto de: A Cidade Surpreendente

quarta-feira, 27 de maio de 2009

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Através da janela




















Vi através da janela
um pequeno jardim
cercado pelo casario
desta cidade bela!
Magníficos pinheiros mansos
davam sombra a um relvado
de minúsculas flores salteado.
Um canteiro de alecrim
inocentes margaridas
um deslumbrante jasmim
embalado pelo vento
num ondulante movimento
inebriava todo o ar
com o seu doce perfume.
Pombos bravos
arrulhavam nos telhados
indiferentes à chilreada
de um bando de pardais
poisados nos beirais.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Na Serra do Alvão
















Giesta em flor
ocre, cor bela
intenso o odor
que entra pela janela,
urze e carqueja
cores de causar inveja,
de púrpura e ouro
vestem o chão
da Serra do Alvão.
Xisto e granito
tudo tão bonito!
A queda d´água
saltando de pedra em pedra
descendo desfiladeiros
alimentando pinheiros
dessedando a terra
de superfícies queimadas.
Da rica vegetação
que resta? Quase nada...
Cabras as ervas tosando
pela serra vão pastando
ao som do chocalho
e de um ou outro balido.
O negro corvo,
o estorninho,
o milhafre
num vôo planado
vigia o ninho
no silêncio profundo
da serra imensa
perdida no mundo...

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

O Eléctrico # 2


O Porto em Agosto

Cidade do Porto
num sábado à tarde
do mês de Agosto.
Passeio pela cidade
que triste realidade,
ruas sujas
pombos enfarruscados
jardins mal cuidados.
Nem gota de água nas fontes,
os prédios degradados
que imagem decadente
impossível ficar indiferente!
Como pode aqui viver gente?

Uma cidade tão bonita,
como chegou a esta situação?!
Culpa pois então, de uma má gestão!
Só alguém sem sensibilidade,
faz isto a uma cidade.

Finalmente,
uma rua decente
esta até tem gente,
prédios restaurados,
bonitos, pintados,
bem arranjados.
Azulejos,
ferros forjados,
vasos nas varandas e janelas
quais flores nas lapelas,
uma calçada,
por sorte não foi asfaltada!

Subi até à Sé
que bonito que isto é.
Gaia, o rio
todo este casario,
dá até um arrepio.

Tanta grua levantada
prova de que a cidade
começa a ser restaurada.
Será que finalmente
ficará com gente?
Habitada de verdade
e dela não reste apenas
uma saudade,
uma memória
de como foi
importante para a História?!

sábado, 31 de janeiro de 2009

Os patinhos da avó Josefina

Foto de Maria Rego












Era uma vez uma menina franzina, de quatro anos, que foi com a mãe visitar a avó. Vestia um bibe azul, azul da cor do céu quando está muito sol - foi assim que pediu quando lhe perguntaram de que cor o queria -, e um chapéu de palha que lhe escondia o cabelo negro aos caracóis.

O percurso entre a casa da menina e da avó Josefina era feito a pé, através de campos e pinhais. Durante o caminho a menina ia apanhando florzinhas - as preferidas eram os miosótis, por serem tão pequeninas e azul turquesa - e fazendo mil perguntas sobre tudo o que via e lhe interessava. Na maioria das vezes, a mãe respondia com histórias interessantes e fantásticas.

Quando finalmente chegaram, a avozinha levou a menina pela mão, dizendo-lhe que tinha uma surpresa linda para ela. Subiram a escada de madeira que dava para o sótão, onde as galinhas punham os ovos e ficavam durante a noite. Que engraçado, galinhas que subiam escadas?! E como eram desajeitadas! Na maior parte das vezes venciam a distância levantando voo.

Uma vez no sótão a avó levou-a junto de uma giga grande coberta com outra, a menina não estava a perceber nada, porque a levava ali? Nunca o tinha feito antes, pelo menos que se lembrasse... levantou a cesta, e, que era aquilo, pintos? A mãe era uma galinha…mas, os filhotes não eram como ela! O bico, as patas e a cor da penugem eram diferentes, pintainhos não eram, até o piar era diferente!... A surpresa era tal que a avó desatou a rir, pegou na cesta e desceram a escada, atravessaram o pátio e foram para junto do regato do moinho. Mistério atrás de mistério, a avó atirou os desgraçados dos pintainhos (que não eram pintainhos) para a água! A avozinha não devia estar boa da cabeça... mais uma risada e foi então que se dignou dizer-lhe que aqueles pintos eram patinhos! E explicou que a galinha era a mãe adoptiva; tinha chocado os ovos porque a pata que os tinha posto não chocava em cativeiro. De seguida a avó deitou grãos de milho na água que os patinhos apanhavam mergulhando… um espanto!
... As coisas interessantes que avó sabia...



(Este conto é para a Leonor e para a Rita, minhas sobrinhas)

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Fritz, o Embuçado

Foto de Carlos Romão













O desvelo que o Fritz dispensou à Tita, deu mau resultado… Também ficou doente. (Já não se pode ser um bom gato!) Perdeu o apetite, não brinca, ficou afónico e não consegue «falar» comigo. Embrulha-se, bem aconchegado na manta - ainda não percebi como consegue, mas certamente não é com a ajuda da gata! - e passa o tempo deitado no sofá, desalentado, na companhia da Tita, que já começa a melhorar.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Ternura

Foto de Catarina Baptista













A Dona Tita, gatinha frágil como é, não resistiu ao frio e adoeceu. Tem uma infecção pulmonar. Não obstante, tem-se portado muito bem, entregue aos cuidados do Senhor Fritz, que não arreda pé, e passa o tempo a mimá-la.