terça-feira, 27 de outubro de 2009

O Moinho do Tio Amadeu

A Casa Grande, tinha um moinho de cereais, movido a água que corria através do regato escavado na encosta. Num socalco paralelo, por onde passava a água que se escapava do canal, o tio Amadeu (que teria doze a 14 anos) construía uma engenhoca, para as nossas brincadeiras, a que chamava «moinho». Quantos ele construiu!

Para a complicada obra, começava-se pela recolha do material que obedecia a um rigoroso ritual:
O tio seguia na frente e as pequenas todas em filinha indiana, atentamente, a seguir o mestre. Claro que só ele sabia o que era bom e apropriado. Dizia, e fazia, tudo com uma autoridade e uma importância, que ficavam convencidas de que, o tio Amadeu sabia daquilo como ninguém, e, realmente não havia nas redondezas quem fizesse o tal (excepto os outros tios, claro). A canalhada – como ele nos chamava – só servia para carregar. Até porque sendo o mais velho, só ele podia utilizar o canivete para a preparação de todo o material de construção.

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Para ilustrar o conto, o tio Amadeu teve a amabilidade de construir um moinho, igualzinho ao de outrora. A montagem, sujeita a certas limitações, teve de ser feita no jardim lá de casa, uma vez que o sítio das nossas brincadeiras desapareceu. Hoje, está irremediavelmente enterrado debaixo de uma estrada.«Ó canalhada”lembrais-vos”?!»

Começava por cortar pauzinhos de «ziriguindum», uns rectos e outros em «Y» para servirem de suporte à rede de canalização; bugalhos e «canos» - o mais difícil de arranjar - que obrigavam a uma pesquisa cuidada. Tínhamos de nos embrenhar no campo de milho, andar entre as canas altas, à cata de aboboreiras. Aí, o tio Amadeu escolhia cuidadosamente quais os caules a abater. Deviam ser o mais retorcido possível para resultar uma obra espectacular! E para não estragar a planta, só podia cortar um de longe a longe. Por isso, ele é que cortava para não estragar a aboboreira! Como os caules tinham «picos» o tio limava-os com o canivete – para que não picassem - cortava a folha, e distribuía os «canos» que transportávamos com todo o cuidado para não estalarem, ou não vedariam a água. Recolhido o material, seguíamos para o local da construção.

Uma vez preparados os caules, era necessário encaixa-los uns nos outros, apoiando-os nos suportes de diferentes alturas, o que dava origem a uma rede emaranhada, retorcida e com vários níveis – autêntica obra de engenharia - que transportava a água até ao «moinho».
O «moinho» era feito com dois paus cruzados, apoiados em dois suportes laterais. Em cada extremidade da cruz, enfiava-se um bugalho oco onde batia a água, fazendo rodar a geringonça. Para terminar a decoração e criar um ambiente, construíam-se uns laguinhos, uns canais, colocavam-se umas pedrinhas... e o que mais nos apetecesse.

Quando tudo estava praticamente pronto, e nos preparávamos para admirar a obra, e ver tudo a funcionar, aparecia a avó dava dois tabefes no tio Amadeu e com uma vassourada deitava por terra todo o trabalhinho!
Não o fazia por maldade, fazia-o porque o tio para brincar, deixava o verdadeiro moinho abandonado a moer em seco, perdia-se a água e rompiam-se as mós em vão.

Mas, logo que a avozinha virava costas...recomeçava tudo de novo!